Um novo estudo realizado nos Estados Unidos aponta que o consumo exclusivo de cannabis (sem co-uso de tabaco) já ultrapassou o uso exclusivo de cigarros entre adultos — um marco que pode trazer importantes reflexos também para o Brasil.
De acordo com a pesquisa publicada em 2024, entre os anos de 2021-2023 o consumo “only cannabis” entre adultos dos EUA subiu de 7,2% para 10,6%, enquanto o uso exclusivo de cigarros caiu de 10,8% para 8,8%.
O estudo sugere que essa tendência está ligada a fatores como: expansão das leis de uso recreativo de cannabis, queda da percepção de risco da planta e maior disponibilidade de produtos derivados (como óleos, vapes e comestíveis). A expectativa é que mudanças similares comecem a aparecer em outros países.
Para o Brasil, onde a pauta da cannabis medicinal e industrial vem ganhando força, esse dado serve como um alerta e uma oportunidade. Saindo de uma ótica quase exclusiva de “proibição” ou “uso terapêutico”, o cenário global mostra que a planta já está passando de cultivo marginal para consumo amplo — o que exige políticas mais atualizadas, regulamentações que incluam consumo responsável, educação pública e equilíbrio entre liberdade, saúde e segurança.
O pesquisador principal do estudo, Jonathan Caulkins, da Carnegie Mellon University, opina: “Embora a cannabis seja vista como menos perigosa que alguns outros entorpecentes, o aumento do uso diário ou quase diário exige que sejam monitorados riscos como dependência, psicose associada e impactos cognitivos.”
Uma planta com milhares de anos de convivência humana
Muito antes de ser associada a proibições ou estigmas modernos, a maconha já fazia parte da vida espiritual, medicinal e social de diferentes povos.
Registros arqueológicos mostram que, há mais de 10 mil anos, comunidades na Ásia Central cultivavam a planta para uso ritualístico, têxtil e terapêutico.
Na China antiga, o imperador Shen Nung (2.700 a.C.) descreveu a maconha em seu tratado médico Pen Ts’ao Ching como uma das “plantas essenciais para equilibrar o corpo e o espírito”.
Na Índia, ela é reverenciada até hoje como uma oferenda sagrada ao deus Shiva, consumida em cerimônias como o Holi e presente em receitas tradicionais, como o Bhang Lassi.
Entre os povos africanos, a maconha — chamada diamba ou liamba — integrava rituais de cura e comunhão espiritual, e foi trazida ao Brasil por pessoas negras escravizadas, que mantiveram sua sabedoria ancestral mesmo sob repressão.
No mundo árabe, o haxixe era utilizado em confrarias de místicos sufis como ferramenta de meditação e contemplação.
Esses usos mostram que o consumo adulto e cerimonial da cannabis é um fenômeno antigo, multicultural e profundamente humano — ligado à busca por bem-estar, introspecção, comunhão e prazer.
Só no século XX, com o avanço das políticas proibicionistas e da chamada “guerra às drogas”, a relação simbiótica entre a humanidade e a planta foi rompida e substituída por estigma e criminalização.
Hoje, com a retomada do debate global e estudos que comprovam seus benefícios medicinais, a cannabis volta a ser vista como o que sempre foi: uma planta de múltiplos significados — sociais, espirituais e terapêuticos.


