Terpenos não são apenas aromas: eles são pistas químicas que podem revelar parentescos, seleções históricas e trajetórias evolutivas. Neste guia, você entende como genes, ambiente e processos de domesticação moldam perfis terpênicos — e por que “o cheiro” pode funcionar como uma assinatura genética (com limites e cuidados).

Terpenos: o que são e por que importam

Terpenos (e terpenoides) são uma das maiores classes de metabólitos naturais produzidos por plantas. Eles participam de funções ecológicas essenciais: defesa química contra herbívoros e patógenos, comunicação com o ambiente, atração de polinizadores e interação com microrganismos. Em termos químicos, eles derivam de “blocos” de cinco carbonos (unidades isoprenoides) que podem ser combinados em estruturas maiores.

A diversidade é gigantesca: milhares de terpenos já foram descritos, mas cada espécie produz apenas uma fração desse universo. A razão disso está no “motor” genético por trás: famílias de genes e enzimas especializadas que direcionam quais moléculas serão produzidas e em que proporções. Uma revisão clássica sobre a família de terpene synthases (TPS) descreve como essas enzimas geram uma variedade enorme de compostos a partir de poucos precursores.

Perfis terpênicos como “assinaturas” químicas

Se você olhar uma planta como um “documento vivo”, os terpenos são uma parte do texto. O conjunto e as proporções de terpenos produzidos por um organismo formam um perfil terpênico. Quando esse perfil é relativamente estável e repetível (considerando variações naturais), ele pode funcionar como uma assinatura química.

Em botânica e ecologia química, perfis de metabólitos são usados para:

  • Distinguir quimiotipos (variações químicas dentro da mesma espécie);
  • Inferir parentesco funcional (linhagens que compartilham capacidades biossintéticas similares);
  • Entender adaptação (mudanças em compostos ligados a pressões ambientais);
  • Reconstruir “histórias” de seleção (o que foi favorecido ao longo do tempo por humanos ou ecossistemas).

Mas atenção: “assinatura” não é “identidade absoluta”. O perfil terpênico tem base genética forte, porém também é influenciado por ambiente, estágio de desenvolvimento e plasticidade metabólica. Por isso, terpenos contam história — mas contam com nuances.

A base genética: a família de genes TPS (terpene synthase)

A principal explicação para a diversidade terpênica está na família de genes TPS, que codifica enzimas responsáveis por “montar” diferentes terpenos. Em plantas, as TPS são frequentemente tratadas como uma família “média” em tamanho, mas altamente diversificada em função: pequenas diferenças na sequência e no sítio ativo podem gerar produtos diferentes — ou múltiplos produtos a partir da mesma enzima.

Estudos genômicos mostram que a família TPS se expande e diversifica por processos como: duplicação gênica (incluindo duplicações em tandem), divergência funcional e rearranjos no genoma. Uma análise ampla do “survey” da família TPS discute expansão e origem evolutiva desses genes e como eles se relacionam com a diversidade de terpenos observada no reino vegetal.

Duplicações, “clusters” e por que isso importa

Em muitas plantas, genes TPS aparecem em arrays (conjuntos) e clusters. Isso é importante porque:

  • Clusters podem facilitar co-herança de capacidades químicas;
  • Duplicações em tandem aumentam rapidamente a “biblioteca” de enzimas disponíveis;
  • Divergência após duplicação permite novos aromas surgirem sem perder funções anteriores;
  • Variação em clusters pode explicar por que certas linhagens enfatizam poucos terpenos-chave.

TPS e função ecológica

Terpenos são “soluções” biológicas. Uma planta que enfrenta certos herbívoros ou patógenos pode ser favorecida por produzir compostos específicos. Ao longo do tempo, isso deixa marcas na composição de TPS e na expressão desses genes — o que ajuda a explicar por que terpenos podem carregar sinal evolutivo.

As rotas de biossíntese (MEP/DOXP e mevalonato): de onde vêm os terpenos

Terpenos são construídos a partir de precursores isoprenoides. Em plantas, duas grandes rotas fornecem esses blocos: a via MEP/DOXP (geralmente associada a monoterpenos em plastídeos) e a via do mevalonato (frequentemente associada a sesquiterpenos no citosol). A “orquestra” final depende de onde o precursor está disponível, quais enzimas TPS estão presentes e como a planta regula fluxo metabólico.

Na prática, isso significa que um perfil terpênico reflete tanto: (a) o “catálogo de enzimas” codificado no genoma, quanto (b) como o organismo regula expressão e disponibilidade de precursores.

Domesticação, seleção e “história humana” dentro do aroma

Quando humanos selecionam plantas por características sensoriais (aroma, paladar) ou funcionais (defesa, resistência, adaptação), eles alteram frequências de variantes genéticas ao longo do tempo — inclusive em genes TPS e reguladores metabólicos. Esse processo deixa pistas:

  • Certos terpenos se tornam mais comuns em linhagens selecionadas;
  • Outros se tornam raros (porque não foram favorecidos ou foram “perdidos” por gargalos genéticos);
  • Perfis passam a ser usados como marcadores culturais (associados a nomes, regiões e narrativas).

É por isso que terpenos não contam apenas “história natural”. Eles contam história social: rotas de circulação, preferências de mercado, tradições regionais e escolhas de seleção ao longo de décadas.

Caso de estudo: Cannabis e a relação entre rótulos, genética e terpenos

Em Cannabis sativa, terpenos são parte central do “perfil” associado a variedades e nomes populares. O ponto científico interessante é que estudos modernos mostram que muitos rótulos culturais (por exemplo, categorias amplas como “Sativa/Indica”) nem sempre correspondem a uma diferenciação genética clara em escala de genoma inteiro. Em vez disso, parte do “sinal” associado a rótulos pode estar fortemente ligado à variação em alguns terpenos específicos — e essa variação pode ser controlada por diferenças em arrays de genes TPS.

Um artigo em Nature Plants analisou amostras com dados químicos (terpenos e outros metabólitos) e dados genômicos, e observou que a distinção por rótulos culturais estava mais relacionada à variação em um conjunto pequeno de terpenos controlados por variação genética em tandem arrays de genes TPS do que por separação genética ampla no genoma.

O que isso significa na prática?

  • Terpenos podem refletir seleção específica: grupos podem convergir em poucos terpenos “marcadores”.
  • Uma narrativa cultural pode “grudar” em química: o aroma vira identidade, mesmo se o genoma for misto.
  • Rastreabilidade exige múltiplas camadas: química + genética + documentação histórica.

Genes e variação de terpenos em Cannabis

Trabalhos em PLOS ONE identificaram e caracterizaram funcionalmente diversas terpene synthases (CsTPS) em cannabis, conectando genes específicos a produtos terpênicos relevantes e mostrando como o “arsenal” enzimático explica grande parte dos compostos encontrados em determinados perfis. Já uma análise detalhada em Plant Physiology discute como a família CsTPS contribui para variação de perfis terpênicos e como a expressão gênica se relaciona com os perfis observados entre cultivares.

Em paralelo, revisões em Plant Science discutem o estado do conhecimento e ressaltam que consistência e padronização de “variedades” dependem de genótipos bem definidos e documentação — exatamente o ponto central de preservação genética e curadoria.

Como a ciência lê terpenos: metabolômica, quimiotipos e dados

1) Metabolômica (o “retrato químico”)

Metabolômica é o campo que mede e compara conjuntos de metabólitos (como terpenos) em amostras biológicas. Quando aplicada a plantas, ela permite mapear padrões e identificar grupos químicos recorrentes.

2) Quimiotipos (classes químicas dentro da mesma espécie)

“Quimiotipo” é uma forma de dizer: dentro de uma mesma espécie, existem populações/linhagens com assinaturas químicas diferentes. Quimiotipos podem surgir por:

  • Variação genética em TPS e reguladores;
  • Seleção natural (pressões ecológicas);
  • Seleção humana (preferências e domesticação);
  • Gargalos genéticos e deriva.

3) Integração com genômica

O passo mais forte é integrar química com genética: associar diferenças no perfil terpênico a variações em genes, especialmente em regiões com clusters de TPS. Essa integração é justamente o que estudos recentes destacam para interpretar rotulagem, identidade e rastreabilidade.

Limites: por que terpenos não são “DNA em forma de cheiro”

Terpenos carregam sinal genético, mas não são equivalentes a DNA por vários motivos:

  • Ambiente altera expressão: temperatura, luz, nutrição e estresse podem modificar quantidade relativa de compostos (mesmo com genótipo igual).
  • Estágio de desenvolvimento: o perfil químico muda ao longo do ciclo de vida da planta.
  • Complexidade regulatória: não é só “ter o gene”; é como ele é regulado e expresso.
  • Convergência química: linhagens diferentes podem produzir perfis semelhantes por caminhos evolutivos distintos (funções parecidas, soluções químicas parecidas).

Por isso, uma leitura madura usa terpenos como pistas e não como prova única. Terpenos ajudam a contar história genética quando conectados a documentação, rastreabilidade e (quando possível) dados genômicos.

O que isso ensina sobre curadoria e preservação genética

Se você pensa em preservação genética como um arquivo, terpenos são como “metadados sensoriais” desse arquivo: uma camada química que registra escolhas de seleção, trajetórias de linhagens e sinais de adaptação.

Para curadoria séria, a lição é clara:

  • Nome sem histórico é frágil — e pode se desconectar da realidade genética.
  • Perfil químico sem contexto é incompleto — pode variar por ambiente e manejo.
  • Documentação + química + genética é o trio que sustenta preservação de longo prazo.

Perguntas frequentes

Terpenos são determinados pela genética?

Em grande parte, sim — sobretudo pela presença/variação de genes TPS e sua regulação. Mas ambiente e estágio de desenvolvimento também influenciam quantidades e proporções.

Então dá para identificar uma linhagem só pelo cheiro?

Não com confiabilidade total. O aroma pode sugerir famílias químicas e indicar pistas, mas rastreabilidade robusta exige documentação, repetição de análises e, quando possível, dados genéticos.

Por que às vezes rótulos culturais não batem com genética?

Porque categorias populares podem se apoiar em poucos marcadores (como determinados terpenos), enquanto a história real de cruzamentos e mistura genética é mais complexa. Pesquisas mostram associação entre rotulagem e variação em alguns terpenos controlados por regiões de genes TPS, sem separação genômica ampla.

Qual a ligação entre TPS e diversidade de terpenos?

TPS são as enzimas que “fabricam” terpenos. Expansões por duplicação e diversificação funcional aumentam o repertório de moléculas que uma espécie pode produzir.