E se o Brasil tivesse em mãos uma cultura capaz de gerar até 11 vezes mais lucro por hectare do que a soja e, mesmo assim, ainda não pudesse plantá-la? Essa é a realidade do cânhamo industrial, uma variedade da Maconha (Cannabis sativa) com menos de 0,3% de THC (sem efeito psicoativo), que hoje é símbolo de inovação e sustentabilidade no campo em diversos países menos no Brasil.
De acordo com a Kaya Mind, empresa de dados especialista no mercado da cannabis no Brasil e América Latina, a regulamentação do cânhamo poderia movimentar R$ 4,9 bilhões em derivados e arrecadar R$ 330 milhões em tributos já no quarto ano de legalização. O estudo estima ainda que o cultivo da planta poderia beneficiar mais de 1.000 setores da economia, de áreas como moda, construção civil, cosméticos, alimentos e biotecnologia.
Já o relatório “Caminhos Regulatórios para o Cânhamo no Brasil”, publicado em setembro deste ano pela Embrapa e Instituto Ficus, confirma o tamanho do potencial: o setor poderia gerar R$ 5,76 bilhões em receitas líquidas, 14 mil empregos e R$ 1,23 bilhão em investimentos até 2030. A produtividade projetada é de R$ 15.959 por hectare, contra R$ 1.239 da soja, uma diferença de onze vezes no retorno agrícola.
Eficiência no campo e ganhos ambientais
Além do alto rendimento, o cânhamo se destaca como cultura de baixo impacto ambiental.
O relatório da Embrapa indica que ele consome 75% menos água que o algodão, dispensa agrotóxicos, regenera solos degradados e pode aumentar em até 20% a produtividade de culturas subsequentes como milho e soja.
A planta cresce rápido podendo ter duas a três safras por ano e possui pegada de carbono negativa, ou seja, captura mais CO₂ do que emite. Exemplo próximo vem do Paraguai, que, após legalizar o cultivo em 2018, vem apostando no cânhamo como ferramenta para alcançar a neutralidade de carbono.
Da semente ao mercado
O cânhamo pode ser usado praticamente por inteiro. De suas fibras saem tecidos, papéis, bioplásticos e materiais de construção; das sementes, alimentos, cosméticos e biocombustíveis; e das flores, compostos medicinais como o CBD. Essa versatilidade torna a planta um insumo estratégico para a bioeconomia e para a transição verde no Brasil um país com clima e solo ideais para o cultivo.
Regulamentação em pauta
O prazo dado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que o governo federal regulamentasse o cânhamo terminou em 30 de setembro de 2025. A decisão, resultado do Incidente de Assunção de Competência (IAC 16), determinou que o Ministério da Agricultura (Mapa) e a Anvisa estabelecessem regras para o plantio e uso da planta para fins industriais, científicos e medicinais.
O Mapa já autorizou a importação de sementes de cânhamo com até 0,3% de THC, mas a Anvisa ainda finaliza a minuta da resolução que atualiza a Portaria 344/1998, definindo as distinções entre maconha psicoativa e cânhamo industrial.
O governo federal solicitou ao STJ a prorrogação do prazo por mais 180 dias, alegando que o tema requer ajustes técnicos e jurídicos entre os dois órgãos. O pedido propõe um novo cronograma de seis meses, que prevê participação popular no processo de construção da norma, com oitiva da sociedade civil, análise das contribuições, elaboração da minuta e, por fim, edição da norma de regulamentação.
Desafios e próximos passos
Tanto a Embrapa quanto a Kaya Mind destacam que o desenvolvimento do setor depende de:
- definição legal clara que diferencie cânhamo e maconha psicoativa;
- criação de cultivares tropicais adaptadas ao Brasil;
- capacitação técnica e fomento à pesquisa;
- e superação do estigma que ainda cerca a planta.
O relatório da Embrapa sugere inclusive a criação de um Programa Nacional do Cânhamo Industrial, com rastreabilidade digital, apoio do Sebrae e Senar, e participação de universidades, para que o país possa competir globalmente em inovação verde.

Uma oportunidade verde para o Brasil
Enquanto França, Canadá, EUA e Paraguai colhem os frutos de suas políticas de incentivo, o Brasil ainda assiste de longe a um mercado em plena expansão.
Para os pesquisadores da Embrapa, o cânhamo é um vetor estratégico da bioeconomia nacional, capaz de unir rentabilidade, sustentabilidade e inclusão social.
A Kaya Mind resume o cenário em uma frase: o cânhamo é a planta que pode revolucionar o agronegócio brasileiro, se o país finalmente decidir plantá-la.


